O mundo pós-aniversário - Lionel Shriver

Título: O mundo pós-aniversário
Autor(a): Lionel Shriver
Editora: Intrínseca
Numero de páginas: 542
ISBN: 9788598078656
Cedido de parceria pela Intrínseca

Esse talvez tenha sido o livro mais voluptuosamente franco em que eu tenha posto as mãos. Ao contrário do que acontece no retrato psicológico Precisamos falar sobre o Kevin, onde temos cartas regadas de acontecimentos e malcriações hediondos que bombardeiam o leitor com sentimentos de repudia por não ser algo vivenciado com frequência, mesmo que nas páginas de um livro; em O mundo pós-aniversário somos apresentados a personagens quase insuportavelmente reais. O que você vai ler nas 542 páginas desse livro é a vida de uma mulher, seus dilemas, seus medos, seus vícios... Tudo isso contado em uma forma tão humana e verossímil como a vida de tantas outras, quanto for possível. Não é um livro para se ler em uma sentada e não é um livro que não se doa, durante a leitura. Mas é um livro que te deixa pensando, refletindo. O mundo pós-aniversário te faz reconhecer que o momento é tudo.
 
Irina McGovern é uma norte-americana ilustradora de livros infantis de quarenta e tantos anos que mantém uma união estável que já dura quase dez anos com Lawrence Trainer, um intelectual promissor de princípios sólidos que trabalha como funcionário de um centro de estudos estratégicos. Sob a ótica externa do pequeno circulo de amizade de Lawrence e Irina, eles têm o que todos procuram num casal: companheirismo e empregos que rendem uma vida confortável e segura. Segura até Irina sentir uma vontade latente de beijar outro homem.

Ramsey Acton é este outro homem, jogador de sinuca famoso no Reino Unido por sempre chegar às finais do campeonato, mas nunca ganhar o prêmio e por sua natureza charmosa e atraente. Seu contato com o casal se limitava a jantares no dia do seu aniversário, tradição que perdurou mais por causa de Lawrence que mantém a sinuca como interesse fervoroso do que por vontade de Irina. Eis que no septuagésimo aniversário de Ramsey, Lawrence está numa conferencia em outra cidade e insiste à sua mulher que leve o velho amigo para jantar. Irina reluta, mas acaba descobrindo ter uma noite fantástica e presa numa encruzilhada do “trair ou não trair?”.

É aí que começa, de fato, O mundo pós-aniversário e onde toda a beleza dele se esconde. Shriver tece sempre dois capítulos para uma situação, sendo no Primeiro relatado a vida segura que Irina tem com o homem previsível que é Lawrence e tendo pequenas felicidades como encontrar um tempero mais barato e assistir televisão toda noite; e o segundo com Ramsey, abandonando a vida contando centavos no mercado e mergulhando num relacionamento voluptuoso com um homem que ganha a vida com um dos jogos mais imprevisíveis que poderia existir, a sinuca. 

A história parece vulgar e sem pouco atrativos, quando contada em linhas gerais. Se fosse somente a dúvida pungente do “trair ou não trair”, seria tão mais simples! Exigiria tão menos tempo e reflexões decisivas, na mente do leitor. Novamente, é um livro que exige maturidade, talvez até mais do que em Precisamos falar sobre o Kevin, já que trata das relações sexuais dos parceiros como algo banal e também impossível de ser descartado. É um dos grandes pilares entre as duas vertentes e por mais que a linguagem seja um pouco menos rebuscada, nesses momentos, não se torna algo vulgar ou desagradável. A leitura em si, é muito áspera e impossível ser digerida em poucos dias, então não faz tanta diferença.

A maneira como Shriver escreve é simplesmente impecável e não nos permite ver um lado melhor do que o outro; um decorrer mais adocicado. A maneira como só há três personagens-chaves nos permite ter um aprofundamento de seu caráter e de suas histórias, tornando-os mais complexos e humanos. Se começamos a desgostar de um personagem no capitulo dez, por exemplo, é só para a escritora nos fazer criar um laco maior com ele, no capitulo dez, seguinte. A mensagem principal que o livro quer trazer é que toda e qualquer decisão tomada por nós, seremos humanos, terá suas consequências, sendo cada uma única e sua inteiramente. Como se houvesse não só um destino, mas vários e somos responsáveis por eles desde o momento em que aprendemos a fazer escolhas. Nos permite contemplar a beleza das escolhas supostamente bem feitas – porque nunca saberemos se ela foi, de fato -, como quando conhecemos alguém por quem temos grande carinho, num lugar mundano. É o a reflexão mais profunda do “e se?” que assombra todos nós.
 
"A ideia é que a gente não tem apenas um destino. As crianças, cada vez mais novas, são pressionadas a decidir o que querem fazer na vida, como se tudo dependesse de uma única decisão. Mas, seja qual for a decisão tomada, haverá altos e baixos. A gente lida com uma série de compensações, e não com um rumo perfeito, comparados ao qual todos os outros seriam uma porcaria. (...) Há vantagens e desvantagens variáveis em cada um desses dois futuros que rivalizam entre si. Mas eu não queria um futuro ruim e um bom. Em ambos, tudo dará certo, na verdade. Está tudo certo.”
 
Um livro que possivelmente te deixará com gosto agridoce na boca, pela maneira sarcasticamente franca como as relações afetivas entre homem e mulher são trabalhadas; fazendo reflexões sobre como somos todos substituíveis e não ficamos satisfeitos, em nenhum momento. Mais uma vez eu fui seduzida pela escrita de Lionel Shriver, que conduz seus livros com honestidade cáustica e proeza excepcional de caracterização, que nos deixa com essa verdade absoluta, não só no final do livro, mas em cada capítulo: Nada é perfeito, a não ser que não aconteça. 

Classificação:
4 de 5. (Muito bom)
O mais impressionante sobre esse livro é sua coesão e imprevisibilidade. Poucos escritores conseguem escrever um romance de forma tão bem-sucedida. Nesse tour de force, Shriver conduz dois. - USA TODAY.

23 comentários:

Carol disse... [Responder comentário]

Nossa... Livros assim me deixam nervosa... e nervosa é um estado em que não quero estar...
Pela sua resenha, parece ser real de mais =S
Mas sua resenha está muito muito muito boa =]

Beijos,
#Resenha falada.

Julia disse... [Responder comentário]

Amei a resenha Lu. Realmente parece ser um livro bem franco. Me lembrou um pouco Quem é você, Alasca? por causa de todo o poder reflexivo que eles parecem ter em comum. É tão incrível quando a gente para e pensa no quanto tudo está tão ligado no universo. Como uma simples coisinha, um simples erro, pode fazer tudo de repente desmoronar. Acho que esse é um livro que eu adoraria ler.
Beijos

thebooksthief.blogspot.com

Aione Simões disse... [Responder comentário]

Uau, que resenha, Lu!
E fiquei muito curiosa pra ler, eu simplesmente adoro histórias reflexivas assim, que narram o conflito interno das personagens.
A história deve exigir maturidade mesmo, porque acredito que não seja fácil de ser lida!
Beijão!

Jacqueline Braga disse... [Responder comentário]

Uau Lu, primeira vez que venho aqui e leio uma resenha, e amei.
Li Precisamos falar sobre o Kevin e gostei bastante, especialmente pelo fato de ser uma leitura reflexiva, angustiante, onde a própria narradora nos apresenta seu lado sombrio e insatisfeito.
Gosto muito da escrita de Lionel. Não conhecia esse livro, mas já vou acrescentar na minha lista.
Bjos

Jack
www.mybooklit.blogspot.com.br

Pabline disse... [Responder comentário]

Quanto tempo, Lu!
Fiquei meio afastada, mas agora estou tentando voltar a ativa :D

Não conhecia o livro. Parece uma leitura muito interessante, e diria até intensa, já que se precisa de uma certa maturidade.
Adoro uma narrativa impecável, caprichar nesse aspecto sempre eleva pontos :)
Amo, amo, quando um livro fala aprofundadamente dos personagens, os tornando mais reais, mais humanos. Realmente parece uma leitura e tanto. Leitura sarcástica? Mi gusta XD

Bjão!

-Amigas Entre Livros-

Mônica Hatakeyama disse... [Responder comentário]

Complexoooooooo!! auahuahuahuahau
Não é muito meu estilo, mas pelos seus comentários até dá uma vontade de saber o enredo inteiro.
Se um dia tiver a oportunidade, pegarei para ler.

Bárbara Murat disse... [Responder comentário]

Desde que você resenhou Precisamos Falar Sobre Kevin fiquei com vontade de ler um livro de Lionel Shriver!
Esse livro não parece ser muito fácil de ler mesmo; mas mesmo assim, fiquei curiosa. Adoro esses livros que fazem a gente quebrar a cabeça de tanto pensar, de maneira boa..
Amei sua resenha!

Beijos.

Priscilla Duhau disse... [Responder comentário]

Desde que vi você falando sobre esse livro no seu vídeo da caixa de correio, fiquei mega ansiosa e curiosa pela sua resenha dele. E posso te falar que a espera não me decepcionou, já que sou uma super fã assumida das suas resenhas. Já falei isso aqui outras vezes - e posso até estar sendo um pouco repetitiva e soando como se estivesse puxando o saco - mas acho que você é uma das pessoas que melhor escrevem resenhas de toda a blogosfera literária.

E sobre esse livro: achei a história dele a minha cara! Ainda mais depois dessa resenha, PRECISO, NECESSITO ler esse livro! E urgentemente. Daqueles tipos de livro que não podemos morrer sem ler, assim como Precisamos Falar Sobre o Kevin. Pelo visto, a Lionel Shriver é realmente uma mestre da escrita, né? *-*

Beijão ♥
Priscilla Duhau
Livrificando

Renata Leite disse... [Responder comentário]

Oi =)
Com essa resenha - e como em todas as outras aqui do blog - fiquei com vontade de ler o livro. Suas resenhas são muito boas, e só nos deixam curiosa pra ler o livro. E com esse não foi diferente.
Parabéns pela resenha ^^

Beijos.

Érika Santos ♥ disse... [Responder comentário]

Hey querida, acabei de indicar seu blog lá no meu..
Espero que tenha gostado..
pois pra mim foi um prazer imenso divulgar esse cantinho..

bjos mil

@_ErikaWaldorf
http://erikarayanaheart.blogspot.com/

Lendo e Comentando disse... [Responder comentário]

Lu, sou LOUCA pra ler esse livro. Aliás, sou louca pra ler algum livro da Lionel... Até hoje não tive oportunidade. E o que eu posso dizer? Sua resenha me deixou louca da vida. É o tipo de livro que gosto. Preciso ler! sua resenha está fantástica, mesmo! Eu gosto de livros onde sinto que os personagens são realmente reais — tb gosto de fantasia, rs, mas... — gosto de sentir que existem pessoas que são realmente daquele jeito, seja esse 'jeito' bom ou ruim...

Beijos,
Amanda.

Camila Costa disse... [Responder comentário]

creio que esse livro me chamou mais a atenção do que Precisamos falar sobre o kevin, não sei, algo na sua resenha me deixou com uma pulga atrás da orelha...espero que consiga lê-lo em breve
Beijãão Lu

Nana disse... [Responder comentário]

Oi Lu
Nossa essa autora parece gostar de mexer com psicológico das pessoas haha
Preciso ler um livro dela urgente, pois parecem ser leituras que ficam na mente por dias.. nos faz pensar e tals.

Esse negócio de sinuca me lembra o Patch haha

Feliz Páscoa
Nana - Obsession Valley

Andressa Tomaz disse... [Responder comentário]

Oi Lu!
Nossa, mais uma ótima resenha! Não conhecia esse livro e como acho que falei na sua caixinha de correio, se eu gostar de Precisamos Falar Sobre o Kevin talvez eu pense em ler este também.
Acho que o livro tem uma temática boa, já que muitas pessoas passam anos da vida pensando ''e se eu tivesse feito outra coisa?''
Gosto de livros que não tem personagens demais, permite que conheçamos melhor aqueles que a história nos apresenta.

Beijos!

Giu Fernandes disse... [Responder comentário]

Oii!
Eu já tinha visto esse livro várias vezes, mas como a capa nunca me chamou muita atenção, não sabia sobre o que se tratava. Mas adorei sua resenha, o livro parece ser interessante!
Beijos!

Raquel disse... [Responder comentário]

Nunca tinha ouvido falar desse livro e nem do Precisamos falar sobre o Kevin e até que me interessei pela história. É verdade, fazer escolhas é muito difícil e nunca saberemos se de fato fizemos uma boa escolha e é horrível, pelo menos pra mim, essa história de "e se" :/
Concordo com o que você disse, infelizmente todos somos substituíveis e nunca estamos satisfeitos :/
Ficou ótima sua resenha!

Luana disse... [Responder comentário]

Esse livro parece ser tão interessante, fiquei super curiosa para ler, confesso que antes da sua resenha não sei se gostaria de ler, ela me intrigou de fato.

Samira, disse... [Responder comentário]

Ei Luana, desde que eu li Precisamos falar sobre o Kevin que eu to querendo ler esse livro. Também to apaixonada pelo jeito como Shriver escreve e agora que você gostou do livro fiquei com mais vontade ainda de ler *-* A resenha ficou ótima.
Bjs,

Samira
http://thebookofmydreams.blogspot.com.br/

Carolina Mello disse... [Responder comentário]

Tou começando a ter vontade de ler os livros dessa autora por tua causa. Essa resenha ficou muito boa, de verdade!

Eduarda Menezes disse... [Responder comentário]

Lu, sua linda, suas resenhas como sempre fantásticas! Adorei, de verdade!
Fiquei louca para ler o livro desde o momento em que você falou dele pela primeira vez na Caixinha do Correio pois não sabia como a história era conduzida e achei de uma criatividade imensa. A escrita da Lionel parece ser bem envolvente e adorei a forma como ela aborda as escolhas pessoas de cada um, nesse livro. Sempre fui fascinada pelas inúmeras vertentes que apenas um dos nossos atos pode desencadear - bem no estilo efeito borboleta, sabe? - e como uma pequena decisão pode mudar completamente o rumo de nossas vidas. Tenho certeza de que vou amar esse livro. ^^

Beijão!
Ps. As suas resenhas sempre estão entre as minhas preferidas!

Paula disse... [Responder comentário]

Achei esse livro bem interessante e me deixou reflexiva quanto as nossas escolhas na vida e suas consequencias... gostei demais do estilo da autora, apesar de ter demorado umas 40 páginas para "engatar"... Bj

Sa disse... [Responder comentário]

Uma confissão: me interesso por um livro pela capa. Quando vi a capa desse livro só pensei em duas palavras: poética e questionamento.

Depois dessa resenha eu tenho certeza que tenho que ler esse livro.

Karina Matos disse... [Responder comentário]

Oi Luana!

Eu tava pesquisando sites pra comprar esse livro e achei seu blog. Eu amei sua resenha! Acabei de publicar a minha no meu blog, mas sempre fico com aquela sensação de que tá faltando falar alguma coisa, sabe? E você falou de uma forma muito verdadeira o que senti lendo ele, parece que completou o que eu quis expressar. Gostei muito mesmo!
Vou ler suas outras resenhas! :)

Beijos ♥
http://vidaaosvinte.com.br/

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